"Sou como a haste fina que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta."

Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter, calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.”

"Não julgue os outros só porque os pecados deles são diferentes dos seus."


Oração Diária _( Clique)

sábado, 1 de agosto de 2015

Para atravessar agosto.


"Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro — e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.
Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. [...]
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu — sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques — tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não deem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas — coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismos. Assumidos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco."

Crônica escrita em AGOSTO de 1995, O ESTADO DE SÃO PAULO

Pra finalizar a noite de sexta, sábado já!


"Eu não me perdi
O sândalo perfuma o machado que-o feriu
Adeus, adeus,adeus meu grande amor
E tanto faz de tudo o que ficou
Guardo um retrato teu
E a saudade mais bonita"

sexta-feira, 31 de julho de 2015

"Eu sei é tudo sem sentido"


"Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui e com a minha própria lei"

"Nunca gostei daquilo que me encanta e vai embora. Estrelas-cadentes só me serviam pra provar que qualquer brilho é fugaz; há sempre a escuridão depois. Dois lados da moeda, dois gumes da faca. Se perder num olhar e acreditar ter achado abrigo é o primeiro passo para perder o controle de vez. E, ainda assim, o que diria a mim mesmo caso topasse com alguém que eu soubesse que não poderia ficar? Entregar-se é um tanto relativo, mas viver o momento é palpável e real. Mesmo que você não coloque tudo de si. Ou se doe por completo. O que vale nessa Vida são as lembranças que levamos conosco, as histórias que podemos contar e os sorrisos que se abriram por nossa causa. Queria que aquela estrela-cadente da minha época de menino demorasse uma eternidade pra passar, mas ela me ensinou que as coisas duram o tempo que tem que durar. O que fica é Saudade. O que se repete é vontade. Talvez eu nunca tenha gostado do circo porque, depois da lona desmontada, sobrava um terreno vazio. Ninguém ali brincava mais. E sobrava em mim uma vontade desesperada de fugir com ele e rir eternamente. Nenhum riso é pra sempre. Graças a Deus que nenhuma dor também."


Gustavo Lacombe 



"Eu quis espernear, gritar “Fica pelo amor de Deus!” Mas desde quando a gente pede uma coisa assim? Desde quando a gente tem que implorar pra alguém ficar? Mesmo que a vontade inunde nossa alma, e a certeza da falta destrua nossas vontades, amor não se implora."


Tati Bernardi


quinta-feira, 30 de julho de 2015


"A gente descobre que está ficando “velha” quando... calça 38 só com “reza braba”, na verdade a 38 virou 42, mas a gente fala que veste 40. Emendar balada com trabalho já não é tão simples assim.  A gente finalmente entende que não adianta espernear que ele, o tempo não volta e conselho de mãe finalmente começa a fazer sentido. A gente percebe que homem mimado/confuso/ciumento/imaturo na verdade é um porre. A companhia é mais importante que o lugar, a baladinha da moda que TODO MUNDO vai é o último lugar que você quer ir.  A gente se da conta que é mortal e as pessoas que amamos também (portanto, reclame menos e aproveite mais). Percebe que toda dor pode e deve ser sentida, que chorar faz bem mas isso não te mata. A gente descobre que pode encontrar a nossa alma gêmea  mas isso não significa que vai viver essa vida com ela e sobrevive ou melhor vive mesmo assim. Que podemos sim continuar amando essa pessoa mesmo que longe dela. Percebe que o que as pessoas falam sobre você realmente não interessa (a não ser que seja um amigo ou parente muito querido). Você pode não ter ficado mais confiante, mas você disfarça bem que é uma beleza  e ser feliz fica mais simples e você começa a dar valor ao que realmente tem."



quarta-feira, 29 de julho de 2015


A morte é uma coisa que eu não consigo digerir. Uma ferida que se abre e nunca mais fecha, nosso mascote, meu companheiro na ultima semana se vai... E eu não consigo parar de chorar. É um animal mas garanto, com todo a certeza do mundo, me deu amor e carinho muito mais que alguns seres humanos. Por que meu Deus, por que você permite amarmos um ser vivo pra depois vê-lo partir???
Como agradecer todo o companheirismo, amor, lealdade??? Por que???
Esse anilmalzinho com todas as suas limitações me fez muito feliz, e eu nunca vou esquece-lo. Descansa em paz meu anjinho, pra onde você vai não exite mais dor, não existe mais limitações. 
Que dor... que dor!

sexta-feira, 24 de julho de 2015



"O problema não foi nenhuma das nossas incontáveis, insuportáveis, intermináveis discussões; nas tardes lindas dos finais de semana em que passávamos mais tempo na cama apagando incêndios do que enamorados. O problema não foi seu incrível dom em arranjar problemas, ou até cisco no olho, naqueles dias pares e ímpares da nossa relação. O problema não foi o seu ciúme doentio, ou seus gritos, ou a sua falta de respeito, sua raiva desmesurada. O problema aqui, tampouco foi você sempre ter me sufocado, por tantas vezes me humilhado, condenado todo o meu passado, minhas escolhas e um dia quem eu fui. O problema não foi qualquer uma das minhas lágrimas, meu coração despedaçado, meu poço profundo de ressentimentos, minhas cartas rasgadas. O problema também não foi sua (in)vigilância, sua implicância, suas mil cobranças ou todas as suas tentativas de me controlar: corpo, mente e alma. Nem você ter estragado festas e noites, arruinado jantares, frustrado viagens, boicotado descansos, com pequenas bobagens que se tornaram vendavais. O problema não foi seu mau humor ser o pano de fundo da nossa história; ou todas as nossas brigas já previstas na agenda. Também não foi o meu desespero casado com a tua falta de lucidez. O problema não foi você ter despertado minhas sombras e demônios que jamais precisariam ter sido despertados. O desespero, a frustração, a nossa violência física, verbal e espiritual. Ou noites muito mal dormidas e lembranças doídas. O problema não foram seus dramas, suas mentiras ou qualquer uma das suas prisões: ter feito do medo, o ar que eu respiro; ter feito do peito, uma coleção de feiuras; ter como vício não ser feliz. A questão não foi você ter feito o inferno parecer parquinho infantil, e  amargo o pão-nosso-de-cada-dia. Não, o problema não foi eu não mais no amor ter crido, ou estar na vida morto enquanto vivo, ter por você adoecido, ou ter por completo apodrecido. O problema mesmo, meu bem, foi você um dia ter nascido."


Guilherme Antunes


quarta-feira, 22 de julho de 2015


"Essa é a menina que mora em mim. Olhar doce, sorriso tímido, muitos sonhos e alguns medos.
Essa é a menina que mora em mim. A fila andou, o tempo passou, mas ela ainda está aqui. E faz questão de me lembrar disso, sempre, a todo momento, na risada fora de hora, no medo da solidão, na interminável vontade de aprender, na sensação de que há tanto ainda por saber,  no desejo , quase desesperado, que ao raiar do dia venha a confirmação de que os monstros debaixo da cama não passam de ilusão.
Essa é a menina que mora em mim. Companheira de longa data, a única que sabe como tudo se deu. Somente ela me conhece, sabe minhas dores e alegrias, medos e fantasias.
Essa é a menina que mora em mim. Apesar de todo o caminho percorrido, às vezes não acredita no que eu mesma digo e ao hesitar, me faz pensar, por vezes, mudar.
Essa é a menina que mora em mim. Carinha de criança, expressão de esperança, mas com uma alma velha, de quem também conhece o peso da vida. Talvez, por isso, mantenha o sorriso, não um sorriso inocente, mas de cumplicidade, típico entre aqueles que se conhecem não só pela metade.
Essa é a menina que mora em mim. Escondida atrás de algumas linhas de expressão, que guarda como troféus das suas pequenas batalhas. Sabe , como ninguém, o que me faz ir além, reconhece meus medos e é capaz de guardar segredos.  Sabe que o tempo é curto e que por isso, não se deve perdê-lo,  mas há momentos em que desiste, seja por dor, preguiça ou medo.
Essa é a menina que mora em mim. Enfrenta lutas diárias entre a alegria e a dor, a sabedoria e o rancor, a maturidade e o frescor. Já pensou em desistir, mas no fundo, deseja mesmo é seguir, seja lá pra onde for.
Essa é a menina que mora em mim. Nos conhecemos há tanto tempo, mas ela ainda me surpreende e faz questão de deixar claro que nem ela mesmo, me entende."




"Você nunca sabe qual rumo que a vida vai tomar. Deseja que siga para alguns de seus sonhos ou objetivos e que acabe por lá mesmo. Espera a inevitabilidade de ser feliz depois de um tempo procurando por isso. O que a gente não para nunca para pensar são os percalços que se enfrenta até chegar nesse semi-utópico “lá”. É por isso que, sem dúvida, a estrada sempre vai ser mais divertida do que a chegada. É por isso que o fim, mesmo sendo o desfecho pra tudo aquilo que se quer, é apenas um pedacinho pequeno de toda a história.
A viagem em si é bem mais importante. Pode ser, inclusive, que no meio dessa trajetória você pense, repense, inverta prioridades e descubra que estava indo na direção errada. Ou precipitada. Quem sabe, então, vai acabar se dando conta de que lugares antes passageiros se tornaram verdadeiras moradas. Lugares esses que não se restringem apenas a cidades ou localidades propriamente ditas. Esses lugares podem ser pessoas, sentimentos e outras coisas que nos pegam com aquele gostinho bom de “é exatamente aqui onde eu quero e deveria estar”.
E a gente nunca sabe onde pode acabar parando.
Aliás, se tem uma coisa que entendi, é que não se deve parar nunca. É preciso manter essa inquietude de aprender e descobrir, procurando ser melhor a cada dia. O Amor vem na esteira junto com isso tudo. Para ele, sempre se quer um porto-seguro, mas é fundamental perceber que esse porto é apenas o ponto de partida para qualquer outro lugar, agora junto de alguém. Até porque, nessa coisa de rodar na longa estrada que é a vida, ter uma companhia para admirar a vista e um abraço pra chamar de lar é dar um colorido maior a tudo. E que não se tenha pressa em achá-lo.
A maioria das coisas que se tornam fundamentais na nossa vida nos chegam como se fossem dispensáveis, mas acabam ficando por provarem o quanto precisamos delas. Ah, e tem mais: há tanto para se viver e descobrir que o fim de um ciclo tem que ser tratado apenas como mais uma etapa. Assim, descobrindo que existem mais chegadas e partidas do que podemos imaginar, vamos tateando nosso futuro devagar, até que chegamos a um ponto em que nos perguntamos “é aqui mesmo onde eu quero estar?”.
Se você for de “não”, reafirma-se o propósito de continuar. Se for de “sim”, perceberá que precisa continuar também, mesmo que julgue ser o final daquela jornada. De uma forma ou de outra, vai continuar seguindo porque enxergará que vida tem seus ciclos. Sempre há algo por fazer. Algo diferente. Algo por viver.
Porque todo final é pai de um novo começo."
Gustavo Lacombe 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

segunda-feira, 13 de julho de 2015



"Ele me esquecerá. Deixará sem resposta minhas cartas […]. Eu lhe mandarei poemas, talvez ele responda com um cartão-postal. Mas é por isso que o amo. Proporei um encontro – debaixo de um relógio, ou numa encruzilhada; esperarei, e ele não virá. É por isso que o amo. Ele se afastará da minha vida, esquecido, quase inteiramente ignorante do que foi para mim. [...] Por isso parto, hesitante mas altiva; sentindo uma dor intolerável, mas segura de que vou triunfar nessa aventura após tanto sofrimento, segura – quero crer – de que no fim descobrirei o objeto do meu desejo."

 Virginia Woolf


sábado, 11 de julho de 2015

Um ano sem você... Todas essas perdas me causam um sofrimento indescritível.




"Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada."


Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem




"As maiores partidas, vão deixar cicatrizes impossíveis de esquecer." 

Ique carvalho


sexta-feira, 3 de julho de 2015



Olhando meus álbuns antigos eu constatei que não, não sou Eu nessas imagens. Não é Meu esse olhar, não é Meu esse sorriso de lado, não é Meu esse semblante, não mais. Não Me reconheço nas fotos antigas! Eu não sou mais o que era ontem! Essa pessoa nessa foto acima não sou mais EU. 
Tão estranho não se reconhecer mais, tão estranho olhar as próprias fotos e só ver uma estranha! Quem foi essa pessoa???? Quem é a pessoa que sou hoje? Não sei... melhor não saber. Melhor nem me mostrar. Sou outra, meu olhar é outro, meu sorriso é outro. Minha aparência física é outra! Não, não sou o que era nessa foto e muito menos  quem era ontem!

Trilha sonora de sexta.








terça-feira, 30 de junho de 2015




“Mas não me consolem: da minha dor, sei eu.” 


Lya Luft


Hoje você faz aniversário Tia, não tem sido fácil. Sinto falta das nossas conversas, dos seus conselhos, da sua presença. A mãe sem você parece uma criança até quebrou o pé ontem. A saudade de você me  consome, nenhuma dor é maior do que a sua partida. Não sei ter a força que tinhas. Me sinto impotente mesmo sabendo que só a minha presença é um bálsamo para a mãe. Nunca vou conseguir ser metade do que fostes, nunca vou ter a metade da força e da coragem que tinhas. Mas uma coisa você me ensinou  e eu aprendi,  se chama "resiliência". Vou levando Tia... um dia de cada vez.

#LutoeternoTiaNilza




"Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.
No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.
Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.
No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa.
Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.
No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença.
Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.
No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo).
Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.
No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais.  E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo."

Martha Medeiros