Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso. Imediatamente parei.,
É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana, na minha frente...
[...]lembro como hoje, olhou para o céu...
Era um céu alto, sem resposta, e um olhar de quem talvez tenha ultrapassado um limite, mas feliz por isso...
Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio...
Tudo isto se passou num momento e, voando num segundo..por isso, eu, lembro nitidamente do acontecido..
Fiquei de fato como se tivesse as mãos atadas. Assim como às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos, com aquele olhar mirando meus olhos e minha boca...
Á partir da segunda canção olhava para ela e sentia um certo ar de surpresa, e de engano misturados.. Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da musica e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem..como se ninguém estivesse ali, e eu berrando para as paredes..
Mas enquanto seguia em minha viagem solitária..e o mundo real cheio de ombros e cabeças, a imagem daquela mulher continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nela havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vívido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trêmulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem da mulher continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
Queria muito ser capaz de levar ela para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E Os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Blumenau/24/11/2007
JBB
